6.8.09

ENTREVISTA

Blog - Como começou seu interesse por moda?
RA - Foi natural para mim que passava horas ao lado da máquina de minha mãe enquanto ela costurava. Eu costumava também idealizar uns modelos que minha mãe executava para mim. Graças a isto eu aprendi a valorizar o feitio da roupa, as técnicas de construção e outros aspectos como acabamento, por exemplo.

Blog - Como surgiu a ideia de abrir uma loja?
RA - Foi uma necessidade e ao mesmo tempo uma solução para um problema que foi surgindo que era atender os clientes que eu já possuía e que freqüentavam meu atelier.

Blog - Você procurou se profissionalizar na área, tem alguma formação específica?
RA - A parte técnica é fundamental para exercer a profissão. Cursei Artes Cênicas – meu objetivo, na falta de curso de moda era atuar como cenógrafo. Mas não deu certo e não dei continuidade. Como não havia cursos de moda quando eu comecei a trabalhar eu fui fazendo por partes. Estudei modelagem industrial e anatômica no Rio de Janeiro e em Petrópolis e criação e projeto no Senac/Esmod em São Paulo, por exemplo. Só mais tarde é que decidi – como uma maneira de me reciclar – fazer Design de Moda, que devo concluir no final deste semestre.

Blog - Como foi no começo a receptividade do público?
RA - Eu sempre fui muito arrojado no meu trabalho e o público curitibano estava muito apegado à calça jeans e à camiseta branca quando eu comecei. Era, então, natural que as pessoas demonstrassem cara de nojo ao ver minhas calças boca de sino, feitas em tweed xadrez marinho com verde num espírito totalmente vintage – isso era 1993 - na vitrine. Mas por ironia, o item esgotou em dois dias. Confesso que nem minha família gostava muito do que eu fazia no início. Hoje eles dizem que “entendem” (risos)... Na verdade eu acho que adoro provocar.

Blog - Por qual motivo você acha que a marca deu certo?
RA - Primeiro porque, apesar do perfil pendendo ao alternativo, eu sempre admirei roupas com qualidade e estilo. Meu compromisso é mais com estilo do que com moda. Vejo pessoas usando roupas minhas do tempo em que comecei e percebo que elas ainda dão um caldo estiloso (risos). Meu trabalho hoje está mais baseado em questionamentos, já que ao desenhar, por exemplo, um jeans eu me pergunto: O que é um jeans? Já que um jeans é isto, como posso fazer diferente? Acho que essa indagação ajuda na hora de surpreender clientes que compram comigo há mais de 15 anos e ainda demonstram interesse pela marca.

Blog - Vende para outros lugares fora de Curitiba?
RA - Houve uma época que sim. ARAD foi distribuída com sucesso nas maiores capitais do país em lojas conceituadas dentro do perfil design alternativo de moda, e por muito tempo o Rio de Janeiro e São Paulo foram meus melhores clientes. No entanto foi tomada a decisão de fechar estes mercados e focar o fiel público de Curitiba, que é quem, de fato sempre ajudou a manter a marca. O curioso é que a marca tem clientes fiéis que moram fora do país, nos EUA, Canadá, no Japão e na Europa, em capitais como Londres, Barcelona, Lisboa, Berlim... E que a cada temporada comparecem para renovar seus estoques de novidades. E o melhor feedback é ouvir depoimentos com histórias sobre estrangeiros curiosos a respeito dos jeans e t-shirts ARAD.

Blog - Como você definiria o seu público?
RA - É um público muito bem qualificado - mais de 70% possui nível superior – e bem situado financeiramente. É exigente e informado. Está conectado à internet, adora a modernidade, gastronomia e cultura de maneira geral. O consumidor ARAD adora viajar e conhecer novos lugares e culturas. É um público hoje um pouco mais adulto, e a maioria tem entre 20 e 40 anos. São homens e mulheres com profissões muito variadas, são advogados, designers, arquitetos, jornalistas, artistas visuais, músicos e mestres.

Blog - Quais as principais características dos consumidores curitibanos?

RA - Eu poderia ficar puxando saco, mas não gosto disso de dizer que o curitibano é exigente, etc. Mas a verdade é que o público que freqüenta a loja ARAD é de fato exigente e um pouco consumista. No entanto ele é também ligado às questões do meio ambiente e às vezes recusa sacolas plásticas, por exemplo. São atentos à qualidade e acabamentos das peças e têm interesse pelas estórias que as roupas procuram contar. É o público que toda marca desejaria ter.

Blog - De onde você tira inspiração para as criações?
RA - Eu busco trabalhar com um repertório próprio, pra não soar falso – e relacionados à marca como o universo da cultura pop, como o cinema, a música e histórias em quadrinhos, por exemplo. Adoro abordar personagens radicais que não se deram bem na vida ou marginais, como atrizes de porn movies, e cantoras punks suicidas. Ao mesmo tempo porque não tecer homenagens a deliciosos musicais do cinema como O Mágico de Oz ou A Noviça Rebelde? É dentro deste universo que procuro buscar referências.

Blog - Existe uma periodicidade ou você vai criando conforme quer?
RA - É preciso alguma estrutura para o negócio dar certo. São duas coleções lançadas ao ano, junto com reedições de ícones da marca a pedido de fãs. Minha intenção é num futuro próximo lançar mais de duas para aumentar o leque de escolha de nossos clientes.

Blog - A marca procura seguir as tendências, se antecipar a elas?
RA - A marca ARAD está preocupada com macro tendências e não com tendências de moda. Tendências de comportamento ou tendências globais me inspiram. O caderno de economia pode dizer muito sobre para onde a moda vai. E normalmente antes. É obvio que estudo as tendências de moda, também, pois é este o meu trabalho, porém, trata-se mais de procurar oferecer uma alternativa do que saber o que vai se estar usando no próximo verão, ou não.

Blog - O que diferencia a sua marca das outras?
RA - Tenho uma grande felicidade em afirmar que é a minha mão presente nas roupas, o meu trabalho artesanal de criador que faz com que uma roupa ARAD tenha personalidade e seja reconhecível por mim de longe. Se ela é reconhecida por mim pode, perfeitamente ser reconhecida também por outras pessoas. Além disso, fixo um limite para as tiragens para que cada cliente tenha certeza de que está adquirindo um produto que está disponível a um seleto público, que aliado à qualidade do design e da confecção geram a percepção de valor.

Blog - Quais seus planos futuros para a marca?
RA - Hoje a marca ARAD passa por uma reestruturação, que precede a minha graduação como designer – que deverá fazer com que eu tenha, inclusive, mais tempo de dedicar-me à marca. A idéia principal é aumentar o número de produtos oferecidos ao cliente ARAD. Neste ano a marca ARAD incorporou o conceito Tailored Jeans, que vem sendo desenvolvido por mim há algumas estações. A ideia de misturar jeans com alfaiataria está rendendo belos resultados e o conceito está se estendendo aos outros produtos da marca como t-shirts e jaquetas. O Tailored Jeans ARAD é feito para consumidores autorais, aquele consumidor que assina o próprio estilo. Difundir a marca é um dos meus compromissos para a próxima década. Mas com cuidado com o perfil e identidade da marca, para que o consumidor fiel não se sinta traído.